sábado, 4 de setembro de 2010

Se envellecemos xuntos, Xulio Valcárcel

"Se ascendo à tua origem
e me transporto pelos anos
sou menino contigo em manhãs azuis
de baloiços e sinos,
não largo a tua saia
e desperto ao amor
um amanhecer pleno de enlevos.

Mas se envelhecemos juntos,
se percorremos o caminho da vida
passo a passo,
fitarei em teus olhos
o decorrer do tempo
vagaroso como um barco.

Se envelhecemos juntos
e desfaço a meada de meus dias
a teu lado,
serei o confidente
de teu caminho sem pegadas,
de teu canto e de tua alma.

Partilharei o sal, o leito
e o abraço,
saberei obscuramente que a nossa passagem
pelo mundo não é em vão.

Confundidos num único latejar
compassado,
seremos dois ribeiros fluindo
em uma mesma água,
dois fogos consumindo-se
numa única chama,
duas ondas calando o seu fragor
na areia final,
última praia.
Nos vaivéns da fortuna
ou do destino,
tu serás a certeza.

Se envelhecemos juntos,
se te acompanho neste trajecto,
soltarei borboletas leves
em tuas pálpebras cansadas,
escutarei o repicar da chuva
nas vidraças da infância,
sentirei tua voz
a esmorecer em calma.

Para tudo entender bastar-me-á
o límpido olhar da tua luz sem ânsia."


traduzido por Julião Bernardes
poema de Xulio Valcárcel

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